Vocês estão prontos/as para o ciclofeminismo?

Esta é a tradução da matéria “Êtes-vous prêt-e-s pour le cycloféminisme?” (“Vocês estão prontos/as para o ciclofeminismo?”), originalmente publicada na edição especial de novembro sobre “Ecologia e feminismo: o mesmo combate?” da revista francesa “S!lence”, sobre as oficinas não-mistas para conserto de bicicletas. Um agradecimento especial à Kelly Koide, que traduziu e compartilhou o texto, além de autorizar a publicação dele aqui e entrar em contato com a editora e com quem produziu esta matéria originalmente, e à Talita Noguchi, que fez o pedido/convite à Kelly para a sua tradução ser publicada aqui.

Por: Guillaume Gamblin / Fotografia: Annabelle Folliet / Tradução: Kelly Koide

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“Vocês estão prontos/as para o ciclofeminismo?”

O coletivo “À vélo, Simone!” [De bicicleta, Simone!] criou em Lyon uma oficina não-mista de reparação de bicicletas, “As horas felinas”. Esse tipo de espaço anti-sexista se desenvolve em diversas oficinas de bicicleta

“No começo, quando eu pedalava, sempre ficava pra trás”, explica Kelly Koide, ciclista assídua há alguns anos e membro do coletivo “À vélo, Simone!”, de Lyon. “Quando troquei de bicicleta, passei a pedalar mais rápido e distâncias maiores.”. Como ela, muitas mulheres têm bicicletas pouco eficazes. Elas querem, por exemplo, ficar sobre o selim com os pés mais próximos do chão, por falta de confiança. Resultado: com as pernas menos esticadas, elas têm menos força pra pedalar. É um pouco como a diferença que existe entre tênis apropriados e sapatos de salto alto para corrida.

Ser uma mulher de bicicleta

As práticas em torno da bicicleta ainda continuam diferentes para homens e mulheres, ponderam Kelly e Marine Joos, que também integra coletivo. Elas constatam: “quando estou subindo a colina da Croix Rousse [bairro de Lyon] de bike, várias vezes as pessoas me aplaudem” – algo que não acontece com os homens.

Além disso, alguns estudos mostram que os acidentes que ocorrem com homens e mulheres não são do mesmo tipo. Para estas, pode ser mais difícil de se impor e ocupar espaço nas vias. Como consequência, elas podem subir mais nas calçadas, que não são adaptadas às bicicletas, ou ficar nos bordos das pistas, expostas ao risco de serem atingidas por portas de carros que se abrem. As mulheres ficam mais vulneráveis na tentativa de se protegerem.

Oficinas para se proteger do sexismo

É por essas razões que certas mulheres, como Kelly e Marine, sentiram a necessidade de criar espaços anti-sexistas no mundo da bicicleta. Ainda mais nas oficinas de reparação, onde a mecânica abriga um universo impregnado de sexismo e de difícil acesso às mulheres.

Foi no “Atelier du Chat Perché”, oficina associativa e autogestionada de reparação de bicicletas, que essa idéia se concretizou, em janeiro de 2015. Duas vezes por mês são organizadas permanências de reparação em modo de “mistura selecionada sem homens cisgênero“, explica Marine. Do que se trata? Resumidamente, todas as pessoas são bem vindas, com exceção daquelas que nasceram homens e reconhecem sua identidade no gênero masculino (1). Trata-se, então, de acolher mulheres, mas também pessoas travestis, transgêneras, intersexo etc., e de oferecer a elas um lugar de descoberta e aprendizado da mecânica de bicicleta, dissociado dos comportamentos sexistas.

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Um espaço de ajuda mútua com outro clima

Como são essas oficinas? “Cada permanência dura de 3 a 4 horas. Ela começa com um pequeno curso de mecânica de uns 15 minutos, seguida por um tempo de reparação, e termina com um momento de discussão com umas brejas ou um piquenique”, explica Kelly. “Nós somos 4 ou 5 voluntárias para acolher e acompanhar as mulheres. Em relação às permanências mistas, rola mais cumplicidade, nós nos sentimos mais próximas”, continua ela. “Ocorre mais ajuda mútua”, diz Marine, “e menos tempo de espera para mexer nas bicicletas. Tem um clima bem diferente”. Esses momentos permitem que mulheres que tenham tido experiências ruins em oficinas possam voltar à mecânica. E, de maneira ampla, são uma ocasião e um meio de refletir sobre a construção de saberes não masculinos, a confiança em si mesma e a ocupação do espaço.

Quais foram as reações? “No começo, foi difícil convencer os outros membros da oficina de fazer uma permanência de reparação à parte”, explica Marine. “Para aceitar essa ideia, é preciso que os homens tomem consciência de seu estatuto de dominantes”. Às vezes, nas oficinas mistas, os/as usuários/as diziam que a criação de um espaço não-misto os/as incomodava. Mas Kelly nota uma evolução: agora, durante as permanências mistas, os voluntários prestam mais atenção e ficam mais sensíveis à questão do sexismo. No entanto, lamenta Marine, “as pessoas ainda nos questionam com frequência sobre o porquê desse espaço com ‘mistura selecionada’, prova de que isso ainda é algo que desperta estranhamento. A gente tá cansada de se justificar toda hora!”

Uma rede francesa e mundial de ciclistas anti-sexistas

Para criar esse horário de permanência dentro da oficina, as mulheres do Chat Perché pesquisaram o que já existia até o momento. Elas participaram do encontro internacional do Heureux Cyclage, a rede nacional francesa de oficinas de bicicletas participativas e solidárias, que havia sido dedicado à temática do sexismo. Em Saint-Étienne, elas conheceram os/as voluntários/as de uma oficina que ocorre num espaço chamado “Une lieu” [uma lugar], que funciona com ‘mistura selecionada’ sem homens cisgênero, e que faz um trabalho não apenas sobre o sexismo, mas também sobre outros tipos de dominação: de raça, classe etc.

Essa constelação de feministas não se restringe à França – longe disso. Em São Paulo, no Brasil, o coletivo Pedalinas, criado em 2009, organiza todos os meses uma “massa crítica” exclusivamente para mulheres. Elas são pouco numerosas, mas persistem, sendo o seu objetivo dar confiança umas às outras para andar pela cidade. “Quando cheguei ali em 2010”, diz Kelly, “eu estava começando a pedalar. Uma menina veio me buscar em casa e fomos andar em grandes avenidas; eu tinha medo, mas ela me passou muita confiança.”. Na Espanha e na Itália, os coletivos também organizam oficinas e ações em torno do sexismo e da bicicleta, e os Estados Unidos não deixam a desejar (veja a legenda da foto), formando assim uma internacional de ciclofeministas, discreta mas determinada…

(1) “cis” vem do latim, “do mesmo lado”, antônimo de “trans”. “Cisgênero” se refere então a uma pessoa cujo gênero está em adequação com o papel social esperado (comportamento, profissão…) em função do sexo atribuído no nascimento (macho/fêmea ou homem/mulher).

 

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“Clitoral mass, nos Estados Unidos”. Em Los Angeles, em 2012, por iniciativa do coletivo “Ovarian Psycos”, algumas mulheres inventaram uma variação da “massa crítica”, ocupação em massa e reivindicativa da rua por bicicletas. Hoje, elas organizam em Los Angeles, Oakland, Chicago, Nova Iorque, Atlanta e Toronto a “clitoral mass” ou “massa clitoriana”, a fim de encorajar as mulheres a andar de bicicleta com um sentimento de prazer, de segurança e de confiança em si mesmas, e de facilitar sua liberdade de movimento. Infos (em inglês) em http://ovarianpsycos.com e http://clitoralmass.org.

2 Comments

  1. Olá pessoal! ameo.andar de bike,mas receio me arriscar indo a.um lugar mais longe por não saber os procedimentos casa a bike tenha algum problema,kkkkk me limito ficar por perto de casa mesmo.Gostaria muito de aprender como trabalhar numa bike.Parabéns a todas e fica na paz de Cristo Jesus!

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